Capítulo 05

Destino Unicamp. E depois?

“Em termos estritos da sociologia da Ciência, a recusa em
levar em consideração os fatos referentes ao Fenômeno UFO
é uma mostra notável dos estreitos limites dentro dos quais nossa
sociedade permite a busca do conhecimento com seriedade”


— Jacques Vallée

Em 23 de janeiro de 1996, por volta das 04:00 h, um comboio saiu da Escola de Sargentos das Armas, de Três Corações, com destino a Campinas (SP). Uma Kombi na frente, os três caminhões em fila e atrás
vários outros automóveis sem identificação. Cinco horas de viagem. Aproximadamente às 09:00 h chegaram na Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Posteriormente os seres foram levados para a Unicamp. A grande, famosa e bem equipada Universidade de Campinas. Lá, as instalações militares do Exército são das mais respeitadas, envolvendo escolas e bases de treinamento que colocam a Armada Brasileira numa estrutura invejada.

Há também o Batalhão de Infantaria Blindada (BIB), o Batalhão de Engenharia Logística (BELOC) e a Escola Preparatória de Cadetes. Os seres foram entregues a uma equipe de pesquisadores civis e militares, destacando-se o médico legista Fortunato Badan Palhares. Iniciaram-se as autópsias e estudos científicos em um corpo, pois que sem embargos uma das criaturas, muito provavelmente aquela capturada pela manhã do sábado, chegou na Unicamp ainda com vida! Funcionários do laboratório estranharam o fato de que, na chegada dos seres, foi pedido para todos se retirarem, o que nunca havia acontecido.

Uma das criaturas foi levada para um laboratório de subsolo no Hospital das Clínicas. Fala-se também de outro laboratório de acesso restrito no prédio de Biologia. O outro ser teria sido levado a uma das geladeiras do IML, situada no necrotério do Cemitério dos Amarais. Testemunhas informaram que nunca viram tais locais tão bem guardados como nos meses de fevereiro, março e abril de 1996. A quantidade de militares avistados nesse período circulando pela Unicamp foi absolutamente incomum. Comentou-se, ainda, que fragmentos metálicos, de origem desconhecida, foram levados para o Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA), em São José dos Campos, no interior de São Paulo, onde teriam permanecido sob a análise de militares num outro laboratório, em uma das duas unidades situadas na Estrada dos Tamoios.

A existência desses laboratórios militares subterrâneos de acesso restrito, até pouco tempo, era conhecida de poucos. Suas instalações parecem estar equipadas com tecnologia de primeiro mundo, e as poucas pessoas que têm acesso a eles somente entram com cartão magnético e identificação de impressão digital. Em 26 de janeiro de 1996, militares norte-americanos, inclusive alguns que atuam na NASA, chegaram à universidade. Oficialmente iriam selecionar cientistas brasileiros para participarem de futuras missões espaciais com os norte-americanos. Começaram a trabalhar em conjunto com os militares brasileiros dentro do laboratório. Enquanto isto, os acontecimentos continuavam gerando o interesse e o fascínio de pessoas de diversas partes do País. Cidadãos e cidadãs imbuídos da finalidade de contribuir como podiam, não hesitavam em passar informações esparsas e com pouca consistência. Mas mesmo essas mostravam alguma lógica, quando pareciam fazer parte de uma série de eventos cuja seriedade era evidente.

Logo ao início de tudo chegaram a dizer de um certo impasse ocorrido dentro das próprias Forças Armadas, quando autoridades militares de alto escalão tiveram o ímpeto e a vontade de colocar tudo a público, talvez fiéis a convicções pessoais que os impulsionavam a revelar fatos revolucionários. Porém, no momento exato a interferência dos argumentos daqueles que há cerca de 50 anos ou mais justificam um claro processo de acobertamento, teria logrado êxito. Já em fins de 1996, um estudante do curso de Física da Unicamp procurou acessar alguns mapas das instalações para contribuir com a confirmação de existência do laboratório fechado de subsolo, como anteriormente alguns já o haviam tentado com algum sucesso.

Registros desse tipo podem lá ser encontrados nos setores responsáveis pelo mapeamento da Unicamp, como a Secretaria de Arquitetura e Arquivo Geral. O estudante dirigiu-se a este último, procurando as plantas de vários prédios, inclusive do Hospital das Clínicas, sob o qual estaria o laboratório de nosso interesse. A funcionária que o atendeu mostrou-se surpresa pelo fato de que poucos dias antes várias caixas de mapas e esquemas haviam sido entregues pelos técnicos responsáveis, mas ao consultar a caixa relativa ao hospital, esta se encontrava totalmente vazia! Os mapas foram assim, súbita e injustificadamente, retirados do acesso livre. A mesma funcionária procurou uma arquiteta do setor, mas esta alegou que ao final de novembro um pessoal da Unicamp havia pedido as cópias de volta.

Um caso como este demonstra que muitas pessoas têm consciência da envergadura de eventos que significam a mudança radical de conceitos e certezas universais, e por isto envolvem-se nas investigações, mesmo que contribuindo com informações modestas, que se somam a outras. Os informantes e as testemunhas desempenham um papel imprescindível, não se podendo saber quais acabam por ser mais importantes, quando se pensa na decifração de todo um contexto e não apenas de fatos isolados que o compõem. Sem embargos, o Caso Varginha é um grande contexto e o pesquisador tem a nítida impressão de que conseguiu exclusivamente a certeza desses fatos isolados, tendo ainda apenas uma visão geral, mas indubitavelmente ainda sem ter conseguido decifrar toda a estória. É aqui que entra o papel de pessoas que participaram apenas indiretamente de alguns eventos, que no entanto trouxeram parcelas indispensáveis numa soma complexa. Tanto elas quanto o pesquisador conseguem vislumbrar a importância de certos dados somente depois da descoberta de pontos indiscutíveis, estes atestados, desta feita, por testemunhas participativas. Bom frisar que grande parte das informações comentadas já haviam chegado ao registro, mas somente com o passar do tempo encontraram seu perfeito lugar de encaixe nos acontecimentos.

Assim é que algumas pessoas que contribuíram participaram, algumas como autênticas testemunhas das principais passagens envolvendo diretamente as criaturas, outras por ouvirem e colherem informações de setores e pessoas envolvidas, e diversas porque se encontraram nos palcos onde se desenrolaram importantes cenas de toda a trama. Talvez o maior exemplo disto seja uma funcionária da Unicamp, que simplesmente recebeu militares que portavam uma caixa metálica, com furos, no dia da chegada daquele material na universidade. Nesses momentos é que se conclui ser absolutamente verdadeiro o conhecido jargão de que o mundo é realmente pequeno, pois inúmeros personagens envolvidos conhecem-se de alguma forma, ou são parentes de outros que trouxeram as informações,
logo à primeira desconfiança.

Dessa maneira pessoas de Campinas relacionam-se com outras de Varginha, que por sua vez têm um relacionamento, de qualquer espécie, com diversas de cidades diferentes, mormente onde se encontram setores militares, onde se desenrolaram encontros ou se desenvolvem atividades médicas, técnicas, policiais etc. É por demais óbvio que não se pode esconder ao menos o grosso de eventos como tais, tornando-se automática a divulgação de dados. E é exatamente isto que permite um trabalho investigativo, como faz parte da cartilha de todo detetive principiante e acontece em inquéritos e levantamentos de quaisquer ordens.

Por ser o Fenômeno UFO muito sujeito a divagações fantasiosas, e ainda não incorporado aos sistemas acadêmicos, tal faceta dele impera e supera o que é óbvio, ao entendimento até de pessoas que deveriam à primeira vista não olvidar tal lógica. Basta que, ao menos por um breve instante, esqueça-se da hipótese de que se trate de extraterrestre ou qualquer outra explicação não aceita. Mas se pense em termos de fatos. Pois estes provam-se com testemunhas, e estas existem em grande número. Nesses momentos deve-se, por outro lado, sempre lembrando do óbvio, raciocinar pela lógica contida no que se afirma, eliminando o mais possível o risco de inverter uma linha correta de interpretação. Um astrônomo de reconhecida competência e cultura invejável comentou que, caso tudo isto fosse realmente verdade, teria fatalmente vazado. Aqui reside o óbvio, que certamente ele esqueceu ao deixar prevalecer o choque emocional de um negador sistemático. É por demais evidente que toda a complexidade do caso, colocada a público, e divulgada com veemência, chegou aos investigadores exatamente por que vazou mesmo. E nem seria possível não ter vazado.

Pode-se retornar ao exemplo da funcionária que recebeu os militares em um certo setor da Unicamp, que possui parentes e amigos íntimos na cidade mineira e na própria Campinas. A ponta da rede das pessoas relacionadas a ela foi encontrada e a partir daí tornou-se fácil fechar-se o cerco até o que relatara. Tal como acontecera com outras testemunhas diretamente participativas dos principais fatos, que não conseguem enfrentar sozinhas e intimamente a consciência do aspecto estarrecedor dos acontecimentos de que participaram, e não evitam a vontade de compartilhar com alguém a ansiedade. Sabe-se que, a partir daí, fatalmente o acontecimento chega a público, bastando que se abra uma busca não muito desgastante. A famosa deturpação e alteração da verdade, quando se está diante da publicidade, pode ser convincentemente filtrada se for possível chegar à fonte.

Mapa da região envolvida no Caso Varginha, tendo esta cidade e Três Corações sido epicentro. Mais ao sul, Campinas, onde está o Hospital das Clínicas da Unicamp. Esta instituição recebeu pelo menos um corpo para ser autopsiado

A senhora Flor, cujo nome verdadeiro deve ser salvaguardado, foi abordada por um cientista da universidade. Dentro em breve chegaria uma encomenda e a funcionária deveria encaminhar seus carregadores até o início de um certo corredor, vez que a partir dali ele e outros colegas tomariam conta da condução do material. Chegaram dois homens do Exército carregando a caixa metálica com alguns furos laterais. Outros vários militares os acompanhavam. Quando a senhora Flor abriu a porta de acesso ao setor de onde todos os funcionários comuns foram convidados horas antes a se retirar, outro militar barrou-a e aos carregadores. Ela e os dois soldados retornaram juntos. Ali se instalaram por dias, residindo, ao ponto de permanecerem por praticamente 24 horas, vários cientistas e assistentes, entre eles o respeitado professor Fortunato Badan Palhares. A estranheza da senhora Flor, bem como de seus diversos colegas, não foi infundada. Primeiro, sempre havia tido livre acesso ao setor em questão, pelo que somente algo de muito sério e sigiloso poderia justificar todas aquelas atitudes. A equipe que passou a fazer por ali a pesquisa misteriosa solicitou por muitos dias tipos diferentes de gêneros, e em horários incomuns, tais como frutas, verduras, leite, sopa batida e até iogurte.

Naqueles dias nem ela, nem ninguém, que não fosse daqueles que se encontravam permanentemente lá por dentro, pôde ter acesso às salas onde algo de muito discreto se passava. Aliás, uma discrição um tanto inevitavelmente indiscreta, tal como certas atitudes oficiais que já haviam ocorrido e ainda ocorreriam... Tais alimentos e gêneros eram recebidos na primeira porta de acesso, que se fechava no mesmo instante. Paralelamente, uma movimentação militar nas dependências de entrada e fundos, em visível e característica guarda, permaneceu por aqueles diversos dias. Num certo momento, foi solicitado soro. A senhora Flor começou a raciocinar e nada pôde descrever do que viu nos primeiros instantes, a não ser supor que aquela caixa metálica poderia no máximo abrigar um corpo ou algo comparável ao tamanho de uma criança de 12 anos.

Como seria inevitável, o bom humor do brasileiro está presente em todas as situações possíveis. Os funcionários que continuaram a sua rotina em outros setores ironizaram: “Ué, dessa vez ele não recebeu defuntos, porque defuntos não comem. Será que ele está tentando testar o metabolismo de defuntos, pedindo todos esses tipos de comida?” Na mesma primeira porta do corredor permaneceram dois guardas do Exército, o que certamente não era nada comum por ali, pois conforme muitos informaram, quando se trata de autópsia ou análise de ossadas de conhecidos, os seguranças escalados são do próprio Hospital das Clínicas. Não se sabe, desse modo, por quanto tempo a situação permaneceu, ou mais propriamente durante quantos dias o material ficou sob os estudos daquela equipe, ou nas próprias instalações da Unicamp.

O gigantesco complexo de edifícios que fazem parte do Hospital das Clínicas, para onde uma das criaturas teria sido encaminhada. A instituição pertence à renomada Universidade de Campinas (ao lado)

Como sempre ressaltado, cenas e fatos isolados num contexto mais complexo e maior foi possível descobrir. Mas tudo indica que as coisas por lá se passaram durante um considerável longo período. Haja vista que um próspero comerciante de automóveis foi até o Hospital das Clínicas, que repete-se, fica dentro do campus da Unicamp, para entregar um veículo adquirido por um médico. Aguardou o médico próximo a um prédio ao lado do Hospital, que fica logo após atravessar-se a rua que liga à entrada principal, numa baixada. Por ali encontra-se também o Centro de Convivência Infantil (CCI). O negociante estranhou quando observou um caminhão do Exército estacionado ao lado do prédio e dois guardas armados de fuzil próximos a uma porta que dava início a um corredor comprido. Quando o médico surgiu, perguntou o que estava se passando e porque a porta estava sendo fortemente guardada. O médico esboçou reação absolutamente tranqüila, dizendo que aquilo era normal.

O comerciante não se deu por satisfeito: “Ora, doutor, já fui militar e sei que isto não é à toa...” O médico não prosseguiu na tranqüilidade anterior: “Fale baixo. Você pode arranjar encrenca”. O negociante de automóveis não pôde evitar, com ironia e rindo, recordando a ampla divulgação pela Imprensa que já naqueles dias agitava o país em virtude do caso: “Ah... Você não vai dizer que é aquela estória de Varginha...” Rapidamente o médico segurou-lhe no braço para interromper. E sussurrou: “Havia duas criaturas, uma morta e outra viva. Mais cedo ou mais tarde essa bomba vai estourar, porque muita coisa está sendo feita. Já tiraram várias fotos, centenas talvez...”

Ainda descrente, nosso descompromissado informante retrucou que, caso a coisa fosse tão séria assim, estranhava o fato de não terem aparecido pessoas dos Estados Unidos, da NASA, ou algo assim. Por certo raciocinando como muitos, que imediatamente acham que casos desse tipo sejam fatalmente cuidados pela Agência Espacial Norte-Americana. O médico encerrou o encontro afirmando-lhe que estava enganado, indagando de maneira insinuante quem lhe dissera que, por acaso, não havia uma equipe de americanos por lá. E se retirou. Este tipo de informação tem seu grau de importância nas investigações, porque é colhido com pessoas que geralmente nem se conhecem e não tiveram acesso a alguns detalhes que jamais foram divulgados. O cruzamento dos dados torna-os acordes na maior parte das vezes.

Muitas pessoas foram consultadas e solicitadas a colaborar na coleta do maior número possível de passagens, pois cada uma delas seria de um valor incomensurável. Mas algumas não foram tão receptivas e sua colaboração foi restrita. Foi o caso de uma professora que prestava serviço na Unicamp, à época. Sempre foi arredia a partir do primeiro depoimento e se pôde tirar dela alguma coisa após muita insistência. No primeiro contato nada soltou de importante. E antes de chegar ao ponto de se recusar definitivamente a apresentar detalhes mais conclusivos, reconheceu que um amigo particular, este sim pertencente aos quadros de pesquisa da Unicamp, confirmou que de fato duas entidades biológicas foram submetidas a uma série de análises naquela conceituada instituição, sob sigilo rigoroso. Ele chegou a levá-la à entrada de um laboratório de subsolo, de acesso destinado apenas a poucos credenciados.

Passaram no horário de almoço por várias salas do Hospital das Clínicas e, ao cruzarem por um cômodo contendo geladeiras para conservação de cadáveres e material biológico, entraram num elevador, que desceu, supõe ela, um pavimento. Deparou com uma sala vazia, de paredes metálicas e em formato hexagonal. O amigo limitou-se a dizer que as criaturas não possuem propriamente sangue, mas uma espécie de plasma viscoso, o que não chega a constituir uma informação convincentemente técnica. Solicitou-lhe que nem indagasse se ele tinha participado das análises daquele material, para evitar até constrangimentos maiores entre ambos. Mas teria confirmado o envolvimento de uma equipe da qual faria parte o doutor Badan Palhares.

A informante fazia um acompanhamento de alunos no campo de Antropologia e, portanto, não pertence ao corpo docente, mas suas atividades estiveram afetas ao Departamento de História. Aquele laboratório cuja sala de entrada avistou pertence a outro departamento, por isto desconhecia a sua existência. O laboratório teria um equipamento sofisticado, próprio para pesquisas de maior complexidade, montado a mando e utilizado por militares nas décadas de 60 e 70. Os fatos ufológicos que se sucederam geraram projetos que coincidem demais para os descartarmos como simples passos do aprimoramento brasileiro de proteção à soberania nacional. Os oito comandos militares do Exército começaram a ser equipados com um sistema de rastreamento territorial por satélite, desenvolvido pelo Núcleo de Monitoramento Ambiental da Embrapa (NMA). Começou pelo Comando Militar do Sudeste em São Paulo. O ministro do Exército Zenildo Lucena anunciou a importação desse sistema no dia 29 de maio de 1996, na cidade de Campinas.

Vista parcial do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), em São José dos Campos (SP), para onde teriam sido encaminhados os fragmentos metálicos de origem desconhecida, encontrados pelo Exército nos arredores de Varginha

Tal visita do ministro do Exército revestiu-se de um certo mistério e de visível discrição, apesar de destinada a uma reunião com o Alto Comando e a tratar do Projeto EsPCEx 2000, de informatização do 28º Batalhão de Infantaria Blindado. O sistema permite que, com imagens de satélite, seja acompanhado o deslocamento de tropas, descobertas invasões de áreas indígenas e combate ao narcotráfico. Só? Esta coincidência aconteceu após as capturas de Varginha e a condução das criaturas exatamente para a cidade de Campinas, onde teriam sido entregues na Escola Preparatória de Cadetes e analisadas na Unicamp. Além de cuidar das questões do sistema de rastreamento por satélites, o ministro do Exército Zenildo Zoroastro de Lucena esteve reunido em Campinas com 29 generais no encontro com o Alto Comando do Exército. Pelo que consta, era a primeira vez que isto se dava fora de Brasília. Apenas um jornal local noticiou tal reunião sui generis, que visava, segundo fontes oficiais, o acompanhamento de licitação de compra de 16 microcomputadores, entre outros assuntos.

Em 01 de março de 1996, os governos do Brasil e Estados Unidos assinaram um acordo de cooperação para uso pacífico do espaço exterior. O administrador da NASA Daniel S. Goldin veio ao Brasil e visitou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), de São José dos Campos. Chegou com a comitiva do secretário de Estado norte-americano Warren Christopher, que formalizou o acordo com o ministro das Relações Exteriores, Felipe Lampreia. Um dia antes da ida a Campinas do Alto Comando e do ministro do Exército, o prefeito daquela cidade paulista, Adalberto Magalhães Teixeira, achava-se internado exatamente no Hospital das Clínicas da Unicamp. Estranhamente, sua esposa, senhora Thereza Christina Strarace Magalhães Teixeira, foi impedida de entrar para visitá-lo. Ao passo que as visitações deveriam encerrar-se às 20:30 h e o hospital fechara as portas bem antes das oito horas. Tudo, sem falar que não seria comum impedir a entrada da esposa do prefeito de uma cidade de tal porte.

O Caso Varginha, bem como outros eventos ufológicos que se multiplicaram, não só no sul de Minas como em outras paragens brasileiras, parece que forçam rapidamente as autoridades a correrem desesperadas em busca de um aperfeiçoamento do plano de acobertamento, ou quem sabe até mesmo de maiores recursos tecnológicos para observar e vigiar mais de perto o próprio fenômeno. O que se nota, nitidamente, é que começam, talvez por cautela contra uma eventual opinião pública desgastante, a preparar o campo para admitirem de vez o fenômeno, mesmo que de forma indireta e gradativa, apesar de urgente. Se tudo o que se passou fosse apenas histeria coletiva, mormente a seriedade e importância dos fatos envolvendo Campinas, jamais haveria necessidade de tanta movimentação altamente sugestiva.

Chegou-se a criar um plano de trato com testemunhas de UFOs, por ação da Defesa Civil de Campinas! As desculpas conhecidas dos ufólogos do mundo inteiro foram as de lugar comum, apesar de se tratar de uma ação totalmente inédita, partindo de um órgão assim: o objetivo seria evitar a histeria coletiva com o aparecimento de supostos discos voadores na região de Campinas. Segundo o diretor da Defesa Civil, lidar com supostas aparições de UFOs de forma científica e séria evitaria até a enorme repercussão que o Caso Varginha ganhou. Estaria dizendo que nas mãos dos negadores sistemáticos a opinião pública seria despistada? Tal projeto entrou em fase de preparação pela Defesa Civil com a assessoria de astrônomos, físicos, psicólogos etc. Inteligentes e bem elaboradas razões oferecidas pelo diretor, Sidney Furtado Fernandes, incluem evitar que um cidadão testemunha de um UFO caia no ridículo.

Curiosamente, essa idéia se concretizou entre abril e maio de 1996, quando foram revelados detalhes surpreendentes do Caso Varginha. A Defesa Civil quer registrar e analisar casos de acidentes siderais e denúncias de aparecimento de UFOs! Com tais atitudes, as autoridades não mais conseguem disfarçar a manifestação do fenômeno, nem sua extraordinária importância. Essas atitudes são perceptíveis claramente e o procedimento de acobertamento está-se desmantelando em desespero! É só observar um tipo de declaração visivelmente esteriotipada, como a que presta o mesmo diretor da Defesa Civil de Campinas: “Foi uma época de muitas ocorrências, como a repercussão em torno do chamado ET de Varginha, o temor pelos impactos de um satélite italiano desgovernado e o suposto aparecimento de OVNIs na região de Campinas”.

Conforme matéria redigida por José Pedro Martins, no jornal Correio Popular de Campinas, de 25 de setembro de 1996, a Defesa Civil elaborou um relatório de dados sobre avistamentos de aeroformas2 e o plano tem quatro passos: (a) o cidadão que avista aciona a Defesa Civil; (b) esta e a junta de profissionais aplicam um questionário com cerca de duzentas perguntas; (c) profissionais e agentes da Defesa Civil visitam o local. Então (d) esta aciona órgãos indicados para encaminhar a ocorrência. Dias depois das notícias veiculadas principalmente pelo Correio, o diálogo mudou substancialmente, com novas desculpas e esclarecimentos do conhecido tipo “não foi bem assim”. E as contradições, para variar, foram visíveis, no sentido de que o plano ainda não estava realmente acertado, nem havia certeza de entrar em ação, entre outras retratações a respeito de insinuações contra ufólogos ou vez por outra ao inverso. Ainda assim o citado diretor da Defesa Civil já declarara para o mesmo jornalista que os acidentes siderais, bem como os eventos envolvendo o suposto aparecimento de UFOs, estão incluídos no Sistema de Codificação de Desastres, Acidentes e Riscos (CODAR). A aplicação do CODAR, em todos os municípios brasileiros, é uma exigência do governo federal desde o final de 1995. Muito sintomático...

 


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