Capítulo 03

A Primeira Colheita

“Em que ponto estamos ainda? Em matéria de pesquisa sobre as estruturas do espaço e do tempo, nossas noções de passado e de futuro já não servem. Ao nível da partícula, o tempo circula simultaneamente nos dois sentidos: futuro e passado”.

— Louis Pauels e Jacques Bergier

 

O sul do Estado de Minas Gerais raramente sofre manifestações mais bravias da natureza. De súbito podem precipitar chuvas fortes e em poucas ocasiões algumas construções já sofreram desabamento de
paredes e os telhados foram aos ares. A tempestade que desabou repentinamente, após um dia quente e quase sem nuvens, naquele sábado 20 de janeiro de 1996, movimentou por várias horas o Corpo de Bombeiros, pertencente à 13a. Companhia. Alguns atendimentos se deram em vários bairros, em virtude de deslizamentos leves, de alguns muros e paredes tombados e árvores centenárias arrancadas pela fúria do vento. O temporal desabou por volta de 18:00 h. Antes o dia foi absolutamente rotineiro para os poucos membros da gloriosa e heróica Companhia. O quartel amanheceu calmo, com os plantões de sempre, alguns preferindo exercícios físicos matinais.

Faltando poucos minutos para as oito e meia daquela manhã, o telefone tocou. Não era um pedido de socorro. Era uma ordem. Quatro homens correram ao carro-pipa e se dirigiram para os fundos do Jardim Andere, na divisa com o pasto que separa o bairro do Jardim Santana. O dia estava fadado a apresentar incríveis contrastes com a paradeira forçada pelo clima. Este só reagiu aos fatos inéditos quase ao anoitecer, com a queda da tempestade, que forçou os bombeiros de Varginha ao corajoso trabalho a que estão acostumados.

Porém, pela manhã, o que se passou teria sido aparentemente um trabalho como os de costume. Mas foi bem sui generis. Até então a Companhia limitava-se aos atendimentos de socorro e à captura de animais peçonhentos ou inconvenientes, bem como de alguns espécimes selvagens que de quando em vez costumam aparecer em fazendas próximas, que são apanhados para preservação e cuidados no zoológico municipal. Não são muitas as notícias de ocorrências naturais com prejuízos ou vítimas. Há o registro de alguns tremores de terra ocorridos na região, com epicentro no Município de Varginha. Um deles foi objeto da atenção especial de sismólogos do Observatório Nacional, no Rio de Janeiro.

O fenômeno foi analisado e resultou em minucioso relatório elaborado pelos professores Armíngulo A. Bueno Pérez e Ney Avelino Barbosa Seixas, do Departamento de Geofísica, Setor de Sismologia, do referido órgão. De um resumo literal do relatório decorre que, em 19 de março de 1982, entre 07:15 h e 07:30 h, hora local, foi sentido um forte estrondo acompanhado de vibrações de janelas, portas e paredes, bem como estremecimento de terra, nas cidades de Varginha e Elói Mendes (distante 14 km). O estrondo também foi sentido na cidade de Três Corações com menor intensidade. O epicentro (ponto sobre a superfície da Terra correspondente ao ponto do interior terrestre onde se origina o movimento sísmico) foi localizado aproximadamente a 4 km de Varginha e na direção sudoeste. A intensidade máxima foi estimada em grau IV na Escala Mercalli Modificada. A classificação nesses graus considera os efeitos do sismo no homem, na natureza e nas construções. No grau IV notam-se oscilações de objetos pendurados e vibrações como as produzidas pela passagem de um caminhão pesado. Ouve-se um estrondo como o resultante da queda de um objeto pesado. Armaduras e paredes de madeira rangem. Os técnicos concluíram que provavelmente a origem foi tectônica, apesar de a análise das feições tectônicas da área afetada não ter permitido com certeza definir a natureza do abalo. O fenômeno teria sido muito superficial.

Levantamentos estatísticos através dos tempos fizeram concluir que o sul de Minas Gerais é uma das regiões de maior número de registros de supostas manifestações de cunho ufológico. Dos estudos ainda decorreu que regiões com características geológicas típicas e semelhantes são exatamente as mesmas que apresentam tanta atividade desse fenômeno ainda carente de respostas definitivas. São conhecidos os trabalhos baseados em ortotenias, cujos pioneiros foram F. Lagarde e Aimé Michel, na década de 50. As ortotenias, num resumo superficial, seriam linhas imaginárias mas bem simétricas e aparentemente pré-definidas, seguidas pelas trajetórias de alegados objetos voadores não identificados1. O relatório decorrente dos abalos em Varginha comprovou mais uma vez que essas áreas de atividade ufológica são marcadas na maioria por algum tipo de falha geológica. Os cientistas que o elaboraram falam, versando sobre a história sísmica da região, que no Brasil a atividade sísmica “consiste de eventos tectônicos de moderada magnitude e de pequenos abalos sísmicos que na maioria das vezes são produzidos por vibrações decorrentes de abatimento de cavernas calcáreas, por acomodações de camadas litológicas de pequeno porte ou por sismos induzidos por reservatórios hidráulicos de grande porte, poços artesianos e aqueles induzidos pela passagem de ondas sísmicas de terremotos com origem na região andina”. Sem embargos de que cavernas calcáreas encontram-se em alguns pontos por perto e a região é praticamente toda cercada pelas águas da Usina Hidroelétrica de Furnas, que conseqüentemente oferecem grande pressão sobre as camadas superficiais.

Ilustrando seus estudos com um mapa geológico, os geofísicos destacam que “...existe uma distribuição densa de epicentros na região sul de Minas Gerais”. Informam, ainda, que cidades bem próximas, como Elói Mendes, Três Corações e Boa Esperança, já sofreram vários abalos sísmicos, sendo que alguns deles chegaram a assustar a população, principalmente na cidade de Boa Esperança. Tal localidade tem um bom número de registros de avistamentos ufológicos. Com base no mesmo relatório pode-se afirmar com segurança que a localização de Varginha possui falhas geológicas. O mapa geológico mostra que a região que abrange a área de Varginha está configurada por um sistema complexo de falhamentos, principalmente dos tipos de transcorrência e de empurrão, estando dividida em pequenos blocos tectônicos apresentando estruturas de desdobramentos.

Relacionando os abalos sísmicos sentidos em Varginha a questões das grandes estruturas oceânicas, como os lineamentos do Atlântico Sul, os técnicos ressaltam, ainda, que a presença dos falhamentos “...não é suficiente para ser atribuída à ocorrência de abalos sísmicos, isto é, ainda não há estudos nessa área que demonstrem que as falhas antigas se encontram num processo de reativação”. Como quer que seja, as informações que obtiveram na pesquisa permitiram inferir que o estrondo estaria associado a um fenômeno superficial de origem tectônica, já que nesta área existem falhas geológicas [destaque do autor]. Resta evidenciado que a área de Varginha, como a grande maioria das regiões de atividade ufológica intensa, encontra-se também caracterizada por falhas geológicas.

No que diz respeito ao clima, quando ocorrem chuvas de granizo, estas chegam quando muito a causar os indesejáveis estragos em plantações e a impedir a boa colheita do café, ocasionando aí sim prejuízos que influenciam fortemente a economia da região. Notícia de um granizo incomum vem da cidade de Andrelândia, também no sul do Estado, distante 310 km de Belo Horizonte e 150 km de Juiz de Fora. Na data de 8 de março de 1993, em plena segunda-feira ensolarada, nenhuma nuvem no céu, por volta de 10:40 h, cerca de 15 pessoas se encontravam passeando num pasto que fica a apenas um quilômetro da cidade. Lá existe uma olaria, em que alguns homens trabalhavam para acelerar sua modesta produção, algumas crianças brincavam e casais andavam pelo morro aproveitando o sol da manhã. Todos voltaram os olhos para o céu atraídos por um ruído forte, um zumbido, que foi aumentando de intensidade à medida que um aparente rastro de fumaça foi-se engrossando, quase verticalmente.

O rastro era antecedido por um núcleo esbranquiçado e arredondado, que se chocou fortemente contra o pasto, abrindo uma pequena depressão. As pessoas que ali estavam correram para perto daquele corpo que, mesmo no chão, ainda exalava uma névoa como se estivesse evaporando. Para surpresa dos homens que chegaram primeiro, o objeto tratava-se de um enorme granizo, uma bola de gelo pardo, irregular, cujo aspecto era de que se encontrava em baixíssima temperatura, já que a aparência externa era bem fôsca e cheia de ranhuras, tal como ocorre com um objeto retirado do congelador.


Cortesia Claudeir Covo (Detalhe Cortesia do Autor)
Vista aérea da mata que fica dentro da cidade e do pasto em que se deu a primeira captura. Ao lado, uma das enormes pedras de granizo que caíram sobre Andrelândia

Na cidade existe o Núcleo de Pesquisas Arqueológicas do Alto Rio Grande, formado por amantes de Geologia, Arqueologia e História. Os membros do grupo foram imediatamente acionados por alguém que se encontrava no pasto e cuidaram da conservação do objeto. Ao que se saiba, portanto, este foi o único caso de granizo que chegou a incomodar a região. Aliás, diria o bem humorado, um único granizo, mas que causou perplexidade. Uma perplexidade que faz lembrar, ao mesmo tempo, uma espécie de preconceito que certos homens de ciência têm contra os leigos, mormente quando estes desejam cuidar de algo não incorporado pelos meios acadêmicos, como é o exemplo do Fenômeno UFO. Geralmente o que se destaca nas afirmações dos pesquisadores reconhecidos pelo meio acadêmico, é a falta de costume do leigo de agir científica e metodicamente diante de certas ocorrências. O que antes de tudo deve ser observado, no entanto, é que nem sempre os recursos melhores para a coleta de um material de pesquisa se acham nas mãos dos órgãos ou institutos credenciados. Por vezes há uma maior facilidade de ação por parte dos leigos, ou até de curiosos, adjetivos que quase sempre servem para definir ufólogos, a prioristicamente.

No caso do granizo de Andrelândia, as coisas se passaram mais ou menos assim, e ao que parece coube ao ufólogo registrar um fato de significativa curiosidade. Para evitar um rápido e inevitável esquecimento. O objeto caiu no Sítio Tenda, próximo a uma cerca de arame e de um pequeno grupo de árvores. O proprietário do sítio, Pedro Paulo Rezende Godinho, encontrava-se próximo ao ponto de impacto, no momento da queda. Ouviu um barulho no céu, pelas suas costas, que comparou a um enxame de abelhas. Ao voltar os olhos constatou que um objeto esbranquiçado já se encontrava no solo. Tocando com as mãos, teve uma sensação de frio. Revolveu a terra com outras testemunhas, sentindo um forte cheiro, mais tarde comparado ao de massa de pão fermentada. Outro rapaz, que se encontrava com o sitiante, apanhou o objeto nas mãos, conduzindo-o à sede da propriedade, embrulhando-o em plástico, acondicionando num recipiente de isopor com gelo. Levaram o material até a Santa Casa de Misericórdia local, exibindo-o a um médico, que se eximiu de opiniões, apesar de haver também tocado diretamente naquele granizo. De lá o material foi conduzido para um laboratório de análises clínicas.

Ao impactar o objeto teria esfarelado e seus esporos se transformaram em grãos amarelados que logo derreteram. Os dois homens que mantiveram o material nas mãos por vários minutos afirmam categoricamente que apesar de ser gelo o frio não chegou a incomodar, nem a provocar falta de sensibilidade. Bom momento para dizer que o objeto não derretia, na verdade. Sublimava. Passava de sólido para gasoso e aparentava ser extremamente volátil, de uma leveza aparente. O presidente do Núcleo, Marcos Paulo de Souza Miranda, raciocinando corretamente, tentou de imediato um contato com o Museu de Astronomia, do Rio de Janeiro, com a intenção de levar o material à análise competente do mundialmente reconhecido astrônomo e professor Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. Uns dois telefonemas resultaram na promessa de que um astrônomo mais próximo deveria ser acionado, por questões de conveniência e melhores recursos financeiros. Mourão teria, então, comunicado a precipitação do material ao professor Antonio Resende Guedes, chefe do Departamento de Geociências da Universidade de Juiz de Fora, astrônomo, físico e filósofo de alta estirpe, o que se conclui facilmente com poucos minutos de diálogo com ele.

As mesmas razões foram, no entanto, apresentadas pelo professor Guedes ao sugerir que, por questão de prática, um interessado nesse tipo de fenômeno fosse por sua vez acionado, pelo que a tarefa recaiu sobre um ufólogo, o autor deste livro. Lamentavelmente, o acondicionamento do material em reservatório especial com nitrogênio líquido (que chega a atingir 196 graus abaixo de zero), uma leitura prévia do granizo com contador Geiger e leitura de níveis de radiação com caneta dosimétrica, instrumental caro, gentilmente cedido por uma empresa multinacional instalada em Varginha, de pouco adiantaram. Não foi possível a análise conclusiva do material na Universidade de Juiz de Fora e o que restou do objeto foi tomado de volta pelo Núcleo de Arqueologia, ao que se saiba apenas um restolho da mistura utilizada na tentativa de análise. As justificativas do astrônomo de Juiz de Fora foram as mais claras e sinceras possíveis, no sentido de que não houve condições para análise. Mesmo que aquele cientista, cuja respeitabilidade salta aos olhos, tenha por outro lado comentado informalmente que possa ter havido algum tipo de hesitação na divulgação das eventuais conclusões, caso tenham sido possíveis. Pelo que, resta a realidade da investigação e da pesquisa científicas neste país. Qual seja, a de que não se deve iludir com amplas possibilidades, pois que estas são raras.

Muitos acreditam que tudo possa ser facilmente analisado, que o interesse do círculo acadêmico é amplamente demonstrado diante de alguns fenômenos, e que os meios para tanto sejam claros e eficientes. Nem sempre é bem assim. Isto tem dois aspectos que influenciam diretamente os pesquisadores de ocorrências não convencionais como UFOs. De um lado, as pesquisas e análises, mesmo rudimentares e elementares que certos ufólogos conseguem, muitas das vezes superam até o que podem alguns reconhecidos institutos. E quando o conseguem, por isto mesmo há um verdadeiro ato louvável da chamada Ufologia Científica. Sob o outro aspecto, não é nada tranqüilo para os amadores e leigos em certas disciplinas acadêmicas conseguirem o efetivo apoio técnico que desejariam dos meios oficiais. Não vai aqui qualquer tentativa de ao menos insinuar algum feito heróico, apenas pelo fato de se ter resgatado um material que precipitou do espaço, para entrega a uma universidade para análise. Mas esta realidade quase sempre é a que caracteriza a pesquisa ufológica, em confronto com a investigação acadêmica.

As coisas não são como se imagina, nem como se gostaria que fossem. Inegável, no entanto, que existam pontos comuns, que devem ser reconhecidos pelos homens das ciências oficializadas ou regulamentadas, a favor da pesquisa ufológica. Por exemplo, a acusação de mania de conspiração já mencionada, que recai sobre os investigadores ufológicos, às vezes também está presente nos pesquisadores titulados. A descompromissada menção de que poderia ter havido um sigilo na análise do material de Andrelândia, por alguma razão de conveniência, quiçá até diplomática e ética – imaginem-se os detritos de latrinas de aviões, sendo soltos a bel prazer em quaisquer espaços aéreos; ou ainda a ejeção aleatória de restos químicos e biológicos de experiências realizadas em ônibus espaciais ou estações orbitais –, demonstra que a conspiração não é simples mania de ufólogo. Ela pode existir em todas as mentes, até nas mais privilegiadas. Afinal, a maior estratégia de todas as atividades humanas é o sigilo, prévio ou continuado. Quer na política, quer nos negócios, quer nas descobertas que marcaram a Ciência. Esse sigilo só é chamado de conspiração quando se fala de assuntos ufológicos? As justificativas não costumam convencer.

Dois adultos e algumas crianças acercaram-se de um animal incomum. Assim era a seus olhos. Estas jogaram alguns pedregulhos. O animal se moveu lentamente e desceu mais alguns metros pelo pasto, logo após a via asfaltada que divide o grande terreno vago, indo em direção à linha férrea. Estivera provavelmente escondida, talvez por algumas horas, na floresta de eucaliptos abaixo, e tentara adentrar a área de construções. Acuada, recuou. Conseguiu manter-se fragilmente escondida até que os bombeiros sargento Palhares, cabo Rubens, soldado Nivaldo e soldado Santos, chegaram e iniciaram uma busca acirrada, que durou cerca de duas horas. Neste ínterim, a cerca de 25 km de Varginha a unidade mais próxima do Exército, a Escola de Sargentos das Armas (EsSA), de Três Corações, foi avisada pelo quartel da Polícia Militar, que já se encontrava alerta e instruída para fazer um comunicado quando algo incomum fosse noticiado ou observado2. E um caminhão de transportes de tropas lonado, marca Mercedez Benz, parou na última rua do quarteirão, logo após a esquina que lhe dá início, relativamente próximo de onde se encontrava o carro-pipa dos bombeiros. Dois tenentes, um sargento e dois soldados compunham a viatura.

Intensificou-se uma busca nervosa. Imediatamente os civis curiosos, que ali já se encontravam, foram concitados a debandar. No instante em que a captura se deu. Ainda esboçando reação de escapar, a criatura foi imobilizada por uma rede de couro, atirada por dois bombeiros. Os quatro soldados do fogo traziam ainda luvas de couro e feltro. Enrolado na rede, o ser foi colocado na carroceria do caminhão de tropa, dentro de uma caixa de madeira, prévia e claramente preparada para tal finalidade, fechada por um pano que a envolveu de todo. A ocorrência era mesmo incomum, tanto que instantes que antecederam a captura o comandante da guarnição de bombeiros, o major Maciel, foi solicitado por rádio que comparecesse rapidamente ao local. A criatura emitia um zumbido, audível por quem estivesse próximo. Com veemência, no local foi lembrada a ordem de absoluto sigilo e o caráter secreto do que acabara de se passar. O caminhão arrancou para fora da cidade, tomando uma via expressa que contorna o lado leste. Dirigindo-se para a Escola de Sargentos das Armas, em Três Corações.


Cortesia do Autor
Ao início da pequena mata, descendo o barranco, os bombeiros efetuaram a primeira captura, aproximadamente onde se encontra esta pessoa. Agora o local está tomado por construções e casas já habitadas (detalhe)

Já na segunda-feira, dia 22, o major Maciel não seria mais o comandante da guarnição local dos bombeiros, tendo sido transferido logo depois para a Companhia de Poços de Caldas, a 151 km de Varginha. O Comando foi temporariamente assumido pelo capitão Pedro Alvarenga. A criatura fora capturada viva. E viva chegara até a referida Unidade do Exército. Em seguida, o capitão, que assumira o comando da companhia logo na segunda-feira, negou de forma pouco criativa até a simples presença dos bombeiros naquele local. E aqui iniciaram-se fatos paralelamente lógicos. Em pleno sábado de manhã não seria possível esconder uma movimentação desse tipo. Como certamente os ufólogos foram subestimados, ou não se supunha que alguém pudesse avançar além da conclusão de que havia ocorrido meros boatos a serem esquecidos pela população local, a tática improvisada inicialmente, com certo descaso, teve que ser mudada às pressas, um pouco tarde. As pessoas, adultos e crianças, estas que chegaram a tentar fazer a criatura mover-se atirando alguns pedregulhos, receberam ordem de circular, retirando-se do local. Dois desses homens subiram a rua e foram avistados por um ajudante de pedreiro.

O servente Henrique José de Souza avistara o caminhão do Corpo de Bombeiros estacionado próximo ao terreno onde se dera a captura e indagou daqueles homens o que se passava lá embaixo. Disseram-lhe que os bombeiros haviam capturado um animal estranho e determinado que se retirassem, com o que ficaram surpresos. Tais homens nunca puderam ser localizados, mesmo porque o servente de pedreiro não os conhecia. Uma das crianças, porém, foi identificada pela insistência, na região, de dois repórteres de uma tevê local. Seu comportamento posterior, perante a investigação, resultaria em uma impressão de que testemunhara algo muito importante e diferente. Vem recusando qualquer conversa, o que a princípio demonstra um ponto favorável à sinceridade de testemunhas, que se tornam arredias aparentemente por terem presenciado um fato chocante.

Henrique surgiu como uma bomba em rede nacional de televisão, dizendo com ingênua naturalidade que realmente avistara o caminhão do Corpo de Bombeiros no local, logo pela manhã, ao ajudar a bater uma laje em uma construção distante cerca de 100 m, em meio a algumas outras obras, logo acima. E que as pessoas presentes lhe haviam dito, apenas, que “...os bombeiros pegaram um bicho estranho lá”. Discreta, mas decisivamente, as contradições inexplicáveis começavam a surgir, e, melhor, denunciadas por testemunhas de situações e fatos indiretos, que tornavam indubitável a evidente intenção, sabia-se lá de quem, de esconder eventos de um sentido no mínimo fantástico. O servente, após ter aparecido em rede de tevê, foi procurado pela

Polícia Civil local, que indagava de sua origem, profissão, laços familiares etc.
Logo depois explicaram-lhe que uma senhora de outro Estado ligara para a delegacia, pois assistira à reportagem sobre o caso na tevê e tivera a impressão de ter visto um filho que saíra de casa há mais de 15 anos. A polícia, então, estava contribuindo para a busca do filho, entre as pessoas de Varginha cuja imagem aparecera na reportagem. Henrique afirma que jamais chegou a ser pressionado ou maltratado, ao contrário, os policiais haviam se dirigido à sua residência e local de trabalho demonstrando gentileza e objetividade. Posteriormente soube-se que a pessoa procurada pela senhora que assistira ao programa era exata, e coincidentemente, Eurico Rodrigues de Freitas, o caseiro de fazenda que avistara o objeto fusiforme na madrugada anterior, sobre o pasto, dirigindo-se para os lados do Bairro Santana.

Outra testemunha resolveu aparecer um ano após os acontecimentos. Alegou que ele e a esposa resolveram que não poderia mais esconder que havia presenciado alguns bombeiros retirando um corpo enrolado em uma rede naquele dia 20 de janeiro, ao assistir a divulgação das pesquisas pela Imprensa. Uma esperança sempre presente em meio aos ufólogos brasileiros que se envolveram no caso foi exatamente esta. A de que, com o passar do tempo, pessoas que soubessem de algo mais procurassem os investigadores, com a consciência de que haviam participado, de alguma forma, de eventos sérios. Com o correr dos meses isto veio a acontecer eventualmente. João Bosco Manoel vendia peixes congelados nas imediações do Bairro Santana e Jardim Andere, carregando uma caixa de isopor. Crê que por volta de 11:00 h, subia pela rua que divide o conjunto de construções com o pasto que adentra o final do Jardim Andere, tomando posteriormente a Rua Benevenuto Braz Vieira. De repente, ouviu alguns brados de policiais fardados que passavam pelo mato que ainda existia por entre as obras, saindo o grupo logo no terreno baldio que faz esquina e fronteiriço ao lote em que as três garotas tinham avistado um ser agachado. Segundo João Bosco tratava-se de um corpo enrolado na rede, de que ele somente pôde observar os pés, assim mesmo sem notar detalhes marcantes, a não ser a impressão de que eram extremamente grandes.

O peixeiro ouviu o comandante do grupo gritar pedindo por pressa, extremamente nervoso. Naquele instante sentiu um cheiro fortíssimo de amoníaco, que lhe fez arderem os olhos. Viu que duas garotas achavam-se mais ao final da rua, em sentido contrário, e que tapavam as narinas, possivelmente incomodadas pelo mesmo cheiro repelente. Tais garotas afastaram-se rapidamente. Como aqueles policiais iniciaram uma apressada descida pela rua, Bosco resolveu subir no parapeito do alpendre de uma casa, quase à frente do lote, quando conseguiu avistar os bombeiros subindo no caminhão pipa, com sua carga um tanto lúgubre. O veículo afastou-se em desabalada carreira. Quando se trata de testemunha, não se podem utilizar conceitos vulgares de “idônea” ou “não autêntica”. Somente as circunstâncias, bem como as afirmações paralelas decorrentes de outros depoimentos podem oferecer uma base mais próxima para a aceitação daquilo que a testemunha depõe.

João Bosco Manoel abrange características múltiplas de uma testemunha complexa para ser analisada. Suas assertivas em nada diferiram, a princípio, de tudo aquilo que já era público e notório, através da divulgação intensa por órgãos de comunicação, a respeito do caso. Basicamente afirma que avistara bombeiros retirando um corpo enrolado numa rede do mesmo sítio que fora o principal palco dos fatos divulgados, mesmo porque o avistamento das três garotas tornara-se o pivô de tudo. Elas eram até então praticamente as únicas testemunhas conhecidas, dadas a público por meio de um intenso interesse da Imprensa. Durante aquele primeiro ano, desde 20 de janeiro de 1996, não apenas todas as principais redes da televisão brasileira já haviam feito reportagens longas e detalhadas a respeito dos alegados incidentes, quanto os maiores jornais já os haviam trazido por diversas vezes e quase sempre em primeira página. Daí que qualquer um, desejoso de passar a fazer parte da notoriedade que o caso permitia, poderia muito bem aparecer alegando que, mesmo não podendo afirmar ter visto qualquer criatura extraterrestre, avistara militares carregando um corpo em uma rede. Já se comentava por todos os cantos as circunstâncias por que se dera a primeira captura, entre 10:30 h e 11:00 h, quando bombeiros haviam apanhado o propalado ser, enrolado em uma rede. Desde o início da grande repercussão na Imprensa tais detalhes já eram públicos.


Cortesia do Autor
João Bosco Manoel mostra a posição que tomou em frente ao lote onde teria avistado bombeiros carregando um dos seres. Na página anterior, Henrique José de Souza, o pedreiro que viu bombeiros em operação durante a captura

 


Por outro lado, a dificuldade reside em não se poder a priori, nem aleatória ou singelamente, descartar um depoimento apenas porque nada de novo apresente. Ou seja, se os fatos ocorreram de certa forma, uma ou algumas testemunhas irão narrá-lo em suas circunstâncias essenciais, sem necessariamente apresentarem discrepâncias. Mesmo que, no caso de João Bosco, uma primeira discrepância tenha se destacado. Afirmava que presenciara bombeiros passando em meio ao mato que entremeava as construções, para saírem logo acima, ao lado do lote em que as garotas haviam tido o avistamento. Porém, testemunhas militares davam conta de que o ser havia sido apanhado bem abaixo, próximo da mata de eucaliptos, a cerca de 200 m de distância do ponto em que Bosco dizia terem saído. Ou os primeiros depoimentos omitiam que após o cerco os militares subiram, até que chegassem ao ponto onde o caminhão pipa encontrava-se estacionado (e antes iniciaram uma busca pelas cercanias, até chegarem à mata de eucaliptos), ou a nova testemunha não atentara para certos detalhes ao ver o caso pela Imprensa, cometendo tal contradição e erro fatal.

A se partir para a última hipótese, considere-se então que as testemunhas militares, informantes dos detalhes que estavam sendo objetos de acobertamento, apesar de qualificadas de forma absolutamente diversa de João Bosco, ou falharam no detalhe, como aventado, ou depuseram fatos completamente irreais. Da mesma forma. Evidente que pertencem aquelas a uma classe de testemunhas mais valiosas, a princípio. Afirmam saber diretamente das fontes todos os fatos e, mais ainda, muitas dizem ter participado das ocorrências, direta e pessoalmente. E não teriam supostamente qualquer razão de contribuir com a pesquisa ufológica solicitando sigilo e fiéis à sua consciência de que eventos dessa ordem não poderiam permanecer segredados. A que nível uma testemunha como o vendedor de peixes poderia diferir, vez que sua razão de ordem moral alegada, para procurar os interessados na divulgação, é exatamente a mesmíssima?

Essa razão parece uma constante em todos aqueles que se tornaram informantes, mesmo com o passar do tempo, como ocorreu com alguém que alega ter avistado a queda de um objeto estranho uma semana antes, nas cercanias dos sítios envolvidos em toda a trama! Apenas sopesando o comportamento da testemunha com o passar do tempo, podem se detectar aspectos que possam em tese tornar seu depoimento desprovido de idoneidade. Assim como muitos envolvidos jamais caíram em contradições ou acresceram detalhes antes omitidos3, com a testemunha em questão já não foi bem assim. O peixeiro acabou por viver uma verdadeira aventura cinematográfica, que talvez valha a pena narrar.

Pai de três filhinhas de tenra idade, com uma esposa trabalhadora e de expressão sóbria, o vendedor de peixes, com seus 28 anos e boa saúde, tropeçando um pouco na dicção em virtude de uma breve gagueira, reside na cidade vizinha de Elói Mendes, a 14 km de Varginha. Depois de avistar o que acreditava tratar-se do recolhimento de um cadáver de andarilho, apesar de não ter compreendido o porquê daquele forte cheiro de amoníaco, Bosco continuou sua entrega de peixes e foi para casa, apanhando um ônibus intermunicipal. Mencionou brevemente à esposa o que presenciara até que viu pela televisão as primeiras notícias de três meninas que tinham avistado um ser estranho agachado próximo a um muro, no Jardim Andere, na Varginha onde se dedicava a ganhar a vida. Pouco tempo depois, ao assistir a novas reportagens, inteirou-se da divulgação de que bombeiros haviam capturado uma criatura envolta em uma rede de couro, à medida que o caso ganhava mais corpo, com um acompanhamento simultâneo das tevês, rádios e jornais. Olhou para a esposa espantado e ela não hesitou, com o mesmo espanto: “Olha! Mas você viu isto!”

Não convinha meter-se naquela estória. Já se delineava uma discussão pública, mesmo subliminar, de afirmações de um lado e negações sistemáticas de outro, ainda que com o devido cuidado, sem embargos de ambos os lados, por motivos óbvios. Até que, um ano depois, uma coletiva reuniu em Varginha vários órgãos de Imprensa, brasileiros e do exterior, para comunicado de novos resultados das investigações ufológicas. Foi então que Bosco, alegando que não acreditava justa a negativa de que sequer uma ocorrência havia sido atendida pelos bombeiros naquela região, resolveu falar com a concordância da esposa. Tentou reconstituir no próprio local todos os passos que dera até avistar policiais passarem pelo tal lote portando sua carga. No dia 22 de janeiro de 1997 já era assediado pela Imprensa local. Seu depoimento parou a cidade no jornal de audiência regional, da Rádio Vanguarda FM, de Varginha, levado ao ar às 11:30 h da manhã.

Era mais uma testemunha que afirmava ter presenciado um momento importante da captura, e desmentia a afirmação de que os bombeiros sequer haviam estado naquelas ruas. A entrevista havia sido gravada uma hora antes e Bosco pôde ouvir seu depoimento já em casa, quando almoçava. Antes mesmo do encerramento do jornal alguém bateu palmas ao portão. A testemunha residia numa modesta casa de fundos, à beira da estrada que liga Elói Mendes à região dos lagos de Furnas, que cercam vários Municípios por quase 300 km em direção noroeste, como Paraguaçu, Fama, Alfenas, Areado, Alpinópolis, Carmo do Rio Claro, Passos e outros. Algumas dessas cidades acabariam fazendo parte de fatos paralelos aos acontecimentos de Varginha, numa onda de eventos de cunho ufológico sem precedentes. Abriu o portão de madeira e começou a subir o barranco, quando deparou com um homem bem vestido, que trajava um terno cinza, louro e forte, sem cabelos.

O visitante barrou seu caminho, indagando se era o cidadão que acabara de dar uma entrevista na rádio de Varginha. Bosco respondeu afirmativamente e perguntou se seu interlocutor tratava-se de algum repórter ou pesquisador em Ufologia. O homem limitou-se a dizer que não e a sugerir, objetivamente, que o peixeiro evitasse falar no assunto dali por diante, já que não convinha continuar, sendo melhor esquecer. Recusou-se a se identificar e saiu, impedindo que Bosco o acompanhasse. A testemunha ainda conseguiu vislumbrar a traseira do automóvel que conduzia o inesperado visitante. Um automóvel de cor clara, beje, provavelmente um Mitsubishi importado.

Comunicando o preocupante fato à esposa, olhou minutos depois pelas cercanias e, notando que nada de suspeito achava-se por perto, apanhou uma carona e correu para Varginha, à cata dos pesquisadores do caso. Bosco adotara uma fisionomia carregada, de visível preocupação e medo. Suava e a boca estava ressecada. Chegou a chorar, ao narrar a improvisada visita. Eram quase três da tarde e a cena inesperada chegava a constranger. Não havia outra saída, estando ou não a testemunha falando a verdade. A surpresa da visita do homem sisudo, bem à frente de sua porta, negando-se a dizer quem era e insinuando uma ameaça, sem ao mesmo tempo afirmar uma coação mais objetiva, deixava não apenas a testemunha, mas a todos, perplexos. Era chamar a Imprensa extraordinariamente, em primeiro lugar a rádio pela qual a entrevista da testemunha fôra ao ar. A expressão de surpresa e confusão do casal de repórteres, que não titubeou em vir correndo, foi a mesma. Não era esperado que o caso, subitamente, após um ano, tomasse novamente aquele rumo tão diretamente ligado a uma espécie de pressão feita sobre testemunhas de casos ufológicos. Tal como consta da literatura e do folclore de incidentes envolvendo discos voadores.

Cerca de uma hora depois, a rádio interrompia a programação normal, o que não é de seu costume, para com manchetes rápidas anunciar: “Testemunha do caso dos ETs recebe estranha visita e é pressionada. Maiores detalhes amanhã no Jornal de Vanguarda”. E o jornal da manhã seguinte paralisou novamente a cidade, jogando ao ar nova entrevista da testemunha. A situação exigia isto, sendo ou não verdadeira. Seria uma forma de proteger o peixeiro contra qualquer abordagem pouco amigável, dando a público a coação que dizia ter sofrido. Após a edição, que provocava comentários incessantes na cidade e em toda a região, a testemunha foi convidada a dar um depoimento numa tevê local. A gravação somente seria feita à noite. Foi-lhe sugerido que concedesse a entrevista em outra cidade, por alguém não ligado à equipe de reportagem e ele achou por bem aceitar dar o depoimento em Três Corações, apesar de seus familiares terem permanecido na sua própria casa, o que acabou por se tornar uma incongruência, e sob a hipótese de verdade da coação, até infantilmente arriscado. Acabou passando a noite lá. Apanhou um ônibus logo cedo.

Aproximadamente meia hora depois, ligava de um telefone público instalado num posto de gasolina do trevo que liga a Rodovia Fernão Dias à estrada que dá acesso a Varginha. Sempre nervoso e desta feita mais temeroso, deixou recados insistentes à procura dos pesquisadores do caso, no sentido de que estava sendo novamente seguido pelas mesmas pessoas que o haviam acossado em sua residência. Quando iniciada a procura por ele, ao chegar seu recado aos pesquisadores, ninguém conseguia encontrá-lo. Procurado pela estrada, no posto de gasolina, nenhuma notícia se tinha de João Bosco. Da última vez que ligara, o fizera para a própria Rádio e falara de forma entrecortada e aflita, parecendo ter desligado rapidamente, como se para fugir ou ter que se esconder de súbito. Não foi possível disfarçar a enorme preocupação que se estabelecera com João Bosco e não restou outra alternativa à Rádio, senão a de novamente interromper, por algumas vezes, a programação musical, para em edições extraordinárias noticiar o desaparecimento momentâneo da testemunha, mesmo porque o chefe de reportagem sentiu-se na obrigação de ajudar.

Estrada perimetral de Varginha seguida pelo caminhão militar lonado da Escola de Sargentos das Armas (EsSA), que transportou a criatura capturada pelos bombeiros desde o Jardim Andere até a vizinha Três Corações

O desfecho permitiu que todos respirassem aliviados, mas teve lá o seu aspecto hilariante. João Bosco alega que após ter sido abordado próximo da estação rodoviária de Três Corações pelo mesmo cidadão que o assediara em casa, desta feita contando com a companhia de mais dois que permaneciam no Mitsubishi bege, chegou ao trevo, ligou apressadamente para todos mas conseguiu uma providencial carona de um conterrâneo que passava naquele instante, correndo para Elói Mendes e escondendo-se, permanecendo trancado no próprio quarto! Cerca de dois meses se passaram. Até que perante uma respeitada repórter de uma das maiores e mais sérias revistas do País a mesma testemunha narrou outros detalhes de sua atribulada aventura, iniciada logo após seu envolvimento com o caso. Desde sua fuga para Elói Mendes nada narrara do que agora afirmava haver passado. Nova surpresa e desta vez uma grande decepção, pois visivelmente passava a cometer claras contradições e, a olhos vistos, fantasiava.

Em meio à entrevista, durante a qual depunha exatamente tudo o que havia presenciado, como se dera o assédio, tanto o primeiro em Elói Mendes, quanto o segundo na rodoviária de Três Corações, de súbito João Bosco resolveu afirmar que, procurado novamente por aqueles desconhecidos, concordara em acompanhá-los até a capital de São Paulo e ouvir deles a oferta de muito dinheiro, para negar a veracidade de suas afirmações. Com nuances de um lance policial singelo e muito explorado, o enredo apresentado pela testemunha consistia no seguinte: Dias depois, ao se encontrar no terminal rodoviário de Varginha, aguardando um ônibus para a sua cidade, foi abordado por duas belas jovens, que solicitaram que as ouvisse com calma, porque não havia razão para temer. Que compreendesse sua intenção e ao menos as escutasse. As moças teriam dito que as pessoas que o haviam procurado não lhe desejavam causar qualquer mal ou inconveniências. Mas que ele assistira, naquele 20 de janeiro, a um fato de extrema importância, cuja versão em detalhes precisaria saber, para concluir que era absolutamente necessário manter-se em sigilo para evitar um pânico geral e o ferimento de diversos valores humanos. Claro que a testemunha usava de palavras diferentes para narrar a abordagem das moças, acessíveis ao seu modesto vocabulário.

Para ganhar sua confiança, alega Bosco, elas frisaram que haviam sido mandadas para conversar, já que a presença masculina de anteriormente poderia provocar-lhe o mesmo receio. E apontaram dois homens que aguardavam pacientemente ao lado da rodoviária, encostados em uma Mercedez muito bonita, de cor azul marinho. A testemunha garante que sentiu confiança nas jovens e resolveu, com segurança, concordar em entrar no automóvel e seguir com seus quatro acompanhantes desconhecidos até São Paulo! Durante a viagem, em que foi tratado com gentileza e simpatia, foi recebendo informações entrecortadas a respeito do caso, mas sem ouvir nada de diferente do que havia sido divulgado pela Imprensa. Tentaram durante todo o trajeto convencê-lo de manter silêncio, pararam em um restaurante para que ele pudesse tomar um lanche e a Mercedez os conduziu para São Paulo. Num apartamento de alto luxo, na Avenida Paulista a comitiva jantou. E nele os ainda desconhecidos companheiros de viagem colocaram à mesa um pacote com muito dinheiro e uma chave de automóvel novo, dizendo-lhe que, assim que aquiescesse voltar atrás publicamente, obteria toda aquela importância e mais o automóvel. Na mesma noite chamaram um táxi, deram-lhe certa quantia para o ônibus e mandaram-no de volta.

No instante em que tais novidades, nunca antes narradas pelo peixeiro, foram afirmadas, ficou evidente que seu testemunho deveria ser definitivamente arquivado, frente ao inegável exagero. Desde o convencimento de entrar em um automóvel de desconhecidos que antes davam-lhe ares de ameaça, à concordância de se dirigir inesperadamente para São Paulo e à infantilidade de oferecimento de um pacote de dinheiro e automóvel novo, tudo a partir de uma abordagem por duas belas mulheres num terminal rodoviário, tornava inconfiável o conjunto de afirmações da testemunha. Não poderia haver o luxo de se aceitar parte do depoimento como verdadeiro, quem sabe o avistamento dos bombeiros carregando o ser numa rede, para achar normal que uma testemunha passe a exagerar após a notoriedade em que se envolve pela Imprensa. A Ufologia parece ter cometido esse erro crasso de valoração de depoimentos em inúmeros casos célebres.

Em março de 1998, João Bosco reapareceu. Afirma que se arrepende de haver forjado a estória da viagem a São Paulo, pois que teria sido a única maneira de não mais ser procurado pelos pesquisadores ou pela Imprensa, pois concluíra, juntamente com a esposa, que realmente não mais deveria prestar qualquer declaração, receoso de sofrer pressões ou algum prejuízo efetivo, de ordem pessoal e familiar.


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