Capítulo 02

Três Meninas e um Grito ao Mundo

“Em busca duma verdade, despendi anos procurando em arquivos e bibliotecas
públicas os depoimentos da época, fantasiosos para alguns, devido às descrições insólitas que apresentam. Quando foi que a mentalidade humana não rejeitou o misterioso, o inexplicável, temendo-o ou procurando ignorá-lo?”


— Fina D’Armada

Há grande movimentação de automóveis na estrada que liga Varginha à Rodovia Fernão Dias, a BR-381, em obras de duplicação. O principal acesso à cidade se dá pela via à beira da qual o senhor José Castilho Neto mantém um sítio agradável, onde se dedica à pecuária. A pequena fazenda possui uma aprazível casa de colonos, bem construída e ampla. Os caseiros Eurico de Freitas e Oralina Augusta de Freitas, 37 anos e 40 anos respectivamente, tocam a vida da propriedade e residem nela com os quatro filhos. O sítio está de fato à beira da estrada, com sua sede ao fundo de uma depressão no pasto. Uma curva e um trecho de quase um quilômetro demarcam a frente da propriedade. O casal, procurado duas semanas depois dos principais acontecimentos, a princípio mostrou-se totalmente em dúvida quanto à data, mas, inseguros, ambos acreditam que aconteceu na madrugada do dia 20 de janeiro de 1996, dia em que o auge dos fatos ocorreu. Por volta da 01:30 h, Oralina assistia tevê e ouviu o gado, lá fora, correndo e bufando de maneira incomum. Um animal predador ou cobra, logo imaginou. Só esperava que não se tratasse de nenhum invasor, ladrão ou fugitivo tentando se esconder. Eurico já dormia.

O gado, que costumava aconchegar-se na estrada logo após a porteira de entrada, disparou em direção contrária, subindo pelo pasto, assustado. Oralina abriu a janela e não percebeu qualquer animal ou alguém que pudesse ter provocado o estouro. Uma passada de olhos por ambos os extremos da estrada de terra. A razão estava porém logo à frente de sua vista, pouco abaixo da divisa com a estrada principal. Olhou forçando a visão, pois algo se movia lentamente, na direção do alto do pasto, para onde o gado disparara. Mas não era muito definido. Fosco. Cinza. Porém o formato era plenamente perceptível. Num misto de susto e surpresa, correu a acordar o marido. Eurico chegou à janela e também viu: “Havia um submarino voando pelo pasto!”

Aquele “submarino”, com as dimensões aparentes de um micro-ônibus (no que concordam ambos, ouvidos separadamente), não emitia qualquer ruído nem possuía luzes. Era de um cinza claro e se movia lentamente em linha reta. Os caseiros, que não possuem um telefone para alarme do proprietário da fazenda, permaneceram observando a passagem do artefato por cerca de 40 minutos, até que ele transpusesse o morro que barra o horizonte na direção da cidade. Ocorre que a distância é de apenas cerca de 800 m. Não era possível que um aparelho voador levasse tanto tempo para transpor uma distância tão curta. E o mais instigador era que voava a cerca de cinco metros de altura, somente alterando sua altitude quando para superar as alterações do terreno. Não voava realmente. A impressão narrada pelo casal é de que flutuava lentamente.

Eurico e Oralina foram naturais ao narrarem, finalmente, sempre em separado, que um detalhe chegou a lhes preocupar. O objeto soltava alguma espécie de fumaça clara de sua parte frontal. E saía por um rombo aberto na estranha fuselagem desprovida de asas. Alguns pedaços do material, ainda presos ao bico, oscilavam como pano ao vento. Permaneceram olhando até que aquilo transpusesse o morro e, possivelmente, tivesse continuado em direção à cidade. O sentido é o mesmo que segue as áreas desabitadas, por mais alguns quilômetros, pelo curso do Rio Verde, que em curva fechada volta, ao se aproximar dos bairros periféricos.

A fazenda de Castilho tornou-se um ponto chave para a decifração do trajeto que o desconhecido artefato teria seguido, antecipando fatos de maior complexidade e que gerariam uma comoção sem precedentes. Teriam Eurico e Oralina observado o objeto que transportava seres estranhos que, de alguma forma, teriam sido desovados em plena cidade, por alguma razão incerta? A fazenda voltaria a ser palco de mais dois breves porém importantes avistamentos, em datas completamente diversas. Ademais, esta questão, a das datas, acha-se incerta até hoje. O casal, como frisado, fora procurado apenas duas semanas depois do conhecido dia 20 de janeiro, mediante a informação de um outro agricultor, o engenheiro Régis Bueno, cuja propriedade rural fica do outro lado da rodovia principal, exatamente em sentido contrário à de Castilho. É possível, porém não certo, que tenham acreditado que seu avistamento se dera na madrugada daquele sábado dia 20. Nunca, no entanto, o disseram com absoluta certeza. Esta dúvida iria, mais tarde, constituir um importante dilema, quando um vigia de uma empresa situada poucos quilômetros depois, na direção da Rodovia Fernão Dias, prestaria um depoimento decisivo. E mais intrigante quando outro depoimento, colhido exatamente um ano após, viria trazer estarrecimento, ora pelo absurdo do que continha, ora por várias incertezas.

Como quer que seja o avistamento se deu na madrugada. Supondo-se para desenvolvimento de raciocínio, que se dera realmente no dia 20, até hoje não se sabe ao certo o que se passou com o objeto ou seus eventuais tripulantes, humanos ou não, de 01:30 h até por volta de 08:30 h, de uma fatídica manhã... Convém não perder de vista, no entanto, que se tem aqui um espaço de cerca de sete horas, durante o qual muitos eventos ou manobras de comportamento poderiam ter ocorrido. Por isto saltaremos para algumas horas mais tarde.
Eram 15:30 h, horário de verão. Kátia Xavier costumava fazer algumas faxinas e tomar conta de crianças nos finais de semana, quando já havia encerrado seus compromissos de doméstica em uma residência da Rua Juiz de Fora, no bairro Jardim Andere. E se encontrava com duas filhas de uma amiga. Uma, de 14 anos, Valquíria Aparecida Silva, alegre mas um tanto introvertida, e outra, Liliane de Fátima Silva, com 16, em mais evidente fase do agradável desabrochar para a vida, caminhavam com Kátia e carregavam alguns pacotes com pertences pessoais. Desciam pela Rua Belo Horizonte e, ao final dela, pensaram em ultrapassar uma cerca de arame que delimita um enorme pasto ainda não loteado, com a finalidade de cursarem um caminho menos longo até o seu bairro, Jardim Santana. Um homem, ao perceber sua intenção, apresentou-se e interveio, sugerindo que não passassem por ali. Alertou o anônimo cidadão que, por ser um sábado de tarde, dia sem movimento, alguns marginais costumavam sair à cata de esconderijos de drogas e, pior, poderiam esboçar atitudes não convenientes para três moças desprotegidas.

Kátia, Valquíria e Liliane acataram o alerta e continuaram seu caminhar pelo próprio bairro até que pudessem se achar mais perto da divisa com o Santana, quando poderiam ultrapassar outro terreno desabitado, porém de melhor visibilidade e proximidade, com menores riscos. Os fundos do Jardim Andere ainda se encontravam com escassas e raras construções, em fase inicial. As garotas resolveram cortar caminho por uma trilha aberta em meio a duas construções e foram sair no último lote de casas já ocupadas, para posteriormente descerem um barranco logo abaixo e, ultrapassando a linha férrea, poderem chegar ao início do Santana, subindo até a residência de Valquíria e Liliane. Deveriam passar por um lote vago da Rua Benevenuto Braz Vieira, ao lado de uma oficina mecânica, que tem o número 36. Em janeiro de 1996 o lote encontrava-se aberto, bem como todos os demais, laterais e de fundos e isto permitiria continuarem pelas trilhas batidas por aqueles que costumavam fazer o mesmo trajeto mais curto. E passaram. Ou melhor, pretendiam passar. Ao adentrarem o lote, Kátia ia mais à frente, Liliane logo atrás e Valquíria um pouco antes.

Luzia Helena da Silva, mãe das últimas, também é doméstica. Gosta de ser chamada de Luíza. O marido trabalha como cobrador em uma linha de coletivos. Luíza conseguiu uma modesta casa, de que ainda deve alguns valores, para ela bem substanciosos. As dificuldades da vida ensinaram-lhe a ser bem realista e a educar as filhas (tem mais duas, uma de 13 e outra de 20) à base de suas verdadeiras possibilidades, evidentemente afastadas de subterfúgios de cunho social. Suas condições nem lhe permitiriam dar-se a este luxo. Porém, honestidade e simplicidade mesclam-se naquela modesta residência de cômodos estreitos, uma sala, dois quartos, um banheiro e uma cozinha. A família é convictamente católica. Logo à entrada podem se observar quadros de João Paulo II e de uma representação de São Jorge. Com certeza, os dois salários que compõem a renda de Luíza unem-se ao fruto do trabalho não menos digno da filha mais velha, enfermeira de um consultório dentário, e o do esposo.
Quando o psiquiatra da Universidade de Harvard John Mack, Ph.D., assessorado pela ufóloga e psicóloga Gilda Moura, terminou sua consulta com as três garotas e Luíza, cinco meses depois dos eventos que as envolveram, resumiu sua impressão no dito de que “renunciaria a suas credenciais universitárias caso estivessem inventando estória”. Poucas testemunhas de fatos ufológicos comportaram-se com tanta objetividade quanto as três meninas que foram a causa da descoberta do rumoroso caso. Por meses a fio seu comportamento, quer diante dos investigadores e pesquisadores, quer diante dos veículos de comunicação, foi de claro espanto diante daquilo que haviam presenciado por poucos preciosos segundos. Kátia estacou a cerca de sete metros do muro que divide a oficina mecânica com o lote vago que tentavam transpor. Olhou, cerrou os olhos e, assustada, gritou às amigas: “Gente! O que é aquilo ali?”


As moças que protagonizaram uma das partes mais importantes do Caso Varginha (a partir da esquerda): Valquíria Aparecida Silva, Kátia Andrade Xavier e Liliane Fátima Silva.
No detalhe, Luíza Helena da Silva, mãe da primeira e da última

Foto tiradas do livro. Cortesia do Autor

Liliane parou logo atrás e se limitou a colocar a mão na boca, no típico gesto de quem se ache subitamente diante de algo notável. E Valquíria suplicou para que saíssem imediatamente dali. Não foram mais do que 10 segundos. Correram, desistiram do atalho e se dirigiram até seu bairro descendo a rua asfaltada logo ao lado. A subida por uma outra via asfaltada, até o Jardim Santana, e ainda mais até a casa, foi fatigante, pois é íngreme e longa. Com certeza a excitação do encontro deu-lhes força para chegarem sem nenhuma parada. Já na sua própria rua, passaram rapidamente pela butique de uma conhecida, sem dar sinal e chegaram em casa, a poucas dezenas de metros à frente. Porém gritavam e estavam abaladas, chorando, o que fez vizinhos e transeuntes acorrerem até o portão de ferro que dá acesso à modesta residência nos fundos. Luíza imaginou, com razão, que as filhas e a amiga acabavam de ter sido vítimas de algum tipo de assédio ou assalto. Talvez alguém estivesse ferido. Apavorada, a mãe correu ao encontro das garotas e apenas conseguiu delas, que gritavam traumatizadas, o dito de que “...acabaram de ver algo ruim”.

Oralina


Cortesia do Autor
Eurico

Luíza pediu à proprietária da butique da esquina, Wilma Abreu Cardoso, que solicitasse a algum conhecido, que fosse proprietário de um automóvel, que a levasse urgentemente até o lote vago mencionado pelas garotas. E foi até lá com uma irmã de Wilma, que possuía uma caminhonete. Nada havia no local. Luíza jura que vislumbrou no chão batido, logo perto do muro, uma marca arredondada com três sulcos ligados, como se deixada por uma pegada grande. E teria sentido um forte cheiro de amoníaco. Tais indícios, no entanto, não foram confirmados pela proprietária da caminhonete, nem encontrados no dia seguinte, ao início das pesquisas. A esta altura várias pessoas começavam a sair de suas casas, curiosas, chegando perto do local. E logo se dispersaram.

A uma distância de quase sete metros Kátia, Liliane e Valquíria não poderiam confundir qualquer animal com o que haviam visto. Ao menos, animais conhecidos. Alguém com uma fantasia? Um doente mental? Uma aberração genética? Um extraterrestre, que logo a mídia alcunhou de O ET de Varginha? O fruto de experiências sigilosas? Um ser habitante do centro da Terra? Um elemental?1 Um ser maligno? Todas essas respostas foram apresentadas com a maior segurança por uma série de experts em tais matérias. Nos dias que se seguiram as garotas receberam visitas das mais diversas espécies, dentre as quais se destacaram ocultistas de conhecimento duvidoso e representantes de correntes religiosas que tinham por finalidade livrá-las do trauma de terem avistado criaturas transcendentais como estas últimas. Sem se aperceberem de que, evidentemente, estavam bombardeando mentes límpidas com hipóteses (ou, para eles, certezas) que mais preocupam e apavoram do que aliviam.


Cortesia Claudeir Covo
Vista aérea da fazenda em que trabalham os caseiros Eurico Rodrigues de Freitas e Oralina Freitas (na página ao lado). Nota-se uma grande curva da BR-491, que liga Varginha à Rodovia Fernão Dias, bem como o Rio Verde, que caminha em direção à cidade e passa logo atrás da fazenda

Tinham visto uma criatura com cabeça, tronco e membros. Agachada a um canto como se, de sua feita, estivesse mais apavorada e perdida do que suas surpresas observadoras. Sofria a olhos vistos, como sempre afirma Liliane. Os braços por entre os joelhos, por um breve instante o ser dirigiu seus grandes olhos vermelhos e saltados, dispostos verticalmente fora da cavidade ocular, sem pálpebras, córnea e íris imperceptíveis, para as garotas. Ergueu levemente a cabeça e voltou a abaixá-la, fitando novamente o chão. Sem cheiro. Sem som ou ruído. A pele era como se coberta por uma camada oleosa, brilhante e úmida. De cor marrom escuro. Nenhum traje, completamente nu. Algumas veias grossas saltadas pelas espáduas, subindo pelo pescoço curto e indo até a base do crânio. O crânio, bem desenvolvido desproporcionalmente, era encimado por protuberâncias saltadas, duas laterais e uma na parte superior, à semelhança de chifres desde o ponto em que as garotas observavam. “Parecia com um enorme coração de boi, escuro”, comparou Valquíria.

Algumas tentativas de retratos falados não atingiram até hoje a finalidade almejada. Em todas as interpretações artísticas as garotas acabam por colocar algumas diferenças que não as deixam convencidas de que se possa ter feito a representação bem aproximada do que teriam visto. Neste ponto o depoimento delas oferece novamente sintomas de grande autenticidade. Nenhuma das três arrisca dizer ou descrever boca e nariz daquela criatura. Afirmam com segurança que não puderam observar, ou não memorizaram, os aspectos de boca e nariz. Daí que os primeiros retratos falados, principalmente aqueles solicitados ao desenhista e fotógrafo Vinício Cunha, realizados com as três, separadamente, não fizeram constar boca e nariz, e obtiveram delas o aval de que, em termos de formato, os desenhos reproduzem mais ou menos o que descrevem.

Uma interpretação posteriormente realizada pelo artista plástico Bilau, a pedido do ufólogo Claudeir Covo, co-editor da revista UFO, retratou melhor a impressão visual das três protagonistas. Ocorre que uma interpretação artística difere essencialmente do que se possa constituir como um retrato falado. Este deve seguir fielmente os dados gradativamente fornecidos pela testemunha, procurando adaptar os traços, o mais possível, à narrativa dela. De plano, pois, o desenho deve ser simples e trazer as informações básicas. Nada impede que posteriormente seja rebuscado com efeitos de relevo e tridimensionalidade, mas certamente os traços elementares do objeto descrito são o que mais interessa. Muitos discutem sobre uma possível multiplicidade de tipos de criaturas registrados nos anais da Ufologia. E os trabalhos estatísticos tentam levantar a tipologia baseando-se na casuística.


Cortesia do Autor
Terreno onde as três garotas avistaram a estranha criatura, com Kátia e Valquíria na foto. Hoje ele encontra-se murado (esq), cercado por construções e com o portão trancado a cadeado

Para se estabelecer uma relação teórica entre a criatura descrita pelas garotas e qualquer outra que pertença aos registros de casos através da história, há que se observar antes de tudo uma possível semelhança de elementos básicos. As pessoas descrevem seres conforme seus sentidos físicos os perceberam, mas oferecem suas narrativas já moldadas com a interferência de suas próprias suposições e impressões subjetivas, fortememente individuais. É evidente que não se pode desprezar a possibilidade de o avistamento ter sido meramente imaginário, a partir de outra coisa concreta, como uma pessoa por exemplo, que por circunstâncias e fatores outros, passou a ser incomum ou estranho. Sempre nos moldes de Jung, ou seja, o caso concreto transformando-se no mito que desde então passa a acompanhar. Isto, no entanto, em Ufologia, é raro, queiram ou não os contraditores, sendo mais uma postura inversa, na verdade uma tentativa hipotética de enquadrar todos os avistamentos de criaturas como projeções míticas. O que a história informa, conforme destacado anteriormente, é que casos concretos criaram os mitos. Aliás, esta é exatamente a definição de um mito, no sentido estrito, e não como alguns entendem, como se mito fosse somente algo imaginado e transformado em uma espécie de ícone capaz de provocar alucinações através dos tempos.

Em Psicologia, por exemplo, desafia-se quem puder apresentar de maneira fundamentada um restrito número de casos sequer, que demonstrem que a pessoa tenha tido alucinações vendo seres extraterrestres ou discos voadores. Ainda mais considerando-se os casos de avistamento testemunhado simultaneamente por mais de uma pessoa. O que, sem embargos, faz lembrar que a alucinação coletiva, com detalhes coincidentes nas descrições, simplesmente não costuma acontecer. O que ocorre, por outro lado, segundo o ufólogo inglês Harrison, já falecido, é que a maior parte das testemunhas, quando vai narrar o avistamento de criaturas estranhas, faz relação a uma imagem conhecida. Isto é extremamente sintomático. Um fazendeiro diz que o que viu se parecia com um animal com chifres, aparentemente um boi ou uma vaca. Uma freira avistara uma criatura que estava vestida com roupas semelhantes ao arquétipo, ao símbolo, de Nossa Senhora ou de outros santos. As associações que algumas testemunhas fazem com informações que já possuem são transformadas pela visão para interpretar aquilo que observaram. Portanto é muito provável que Kátia, Liliane e Valquíria tenham sofrido algum tipo de interpretação subjetiva, pois que tal ocorre na maior parte dos casos.


Cortesia Autor
O psiquiatra John E. Mack, da Universidade de Harvard, veio ao Brasil e foi a Varginha acompanhado pela psicóloga Gilda Moura. Lá interrogou as testemunhas do caso e considerou-o absolutamente legítimo. “Renunciaria a minhas credenciais universitárias caso as meninas estivessem inventando estória”

Porém, há que se discutir que tipo de influência sofreram não apenas durante o choque e a surpresa da observação, mas principalmente durante os seus depoimentos. A pensarmos primeiramente no seu próprio senso místico, a condição de católicas as faz adotar a figura do demônio, esteriotipada em um ser de compleição física típica, dotado de chifres e de olhos vermelhos. O pavor e o caráter súbito do avistamento transfere de imediato esses ícones de horror às vias da percepção, em tese. Paralelamente, a Ufologia vem traçando uma tipologia de seres, classificando-os segundo alguns parâmetros elementares. Mas existiria mesmo uma tipologia tão diversificada em casos ufológicos? Pode ser que sim, pode ser que não, numa obviedade escapista de quem comente. Mas ocorre que, mesmo nas estatísticas, os estudos ufológicos ainda deixam muito a desejar.

Uma observação mais rígida dos registros conduz-nos a considerar que não exista necessariamente uma tipologia tão diversificada. Tanto assim é, que basicamente alguém definiu cinco classes de criaturas envolvidas nos casos consideráveis. Os tipos Alfa, Beta, Ômega, Teta e Delta. Por se constituir de um aspecto animalesco, o ser das garotas poderia ser enquadrado na categoria Delta. Afora isto, qualquer tentativa de maior diversificação ainda estaria fadada ao fracasso. Por exemplo, uma pessoa diz ter visto uma criatura e outra também informa ter observado o mesmo ser. A primeira coisa que o investigador solicita é que a primeira testemunha não apenas descreva, mas desenhe o que viu. Só que o traço para o desenho, de uma testemunha, é diferente do da outra e ambas darão toques pessoais no respectivo desenho, ou na própria representação artística. E, após a comparação, alguns pesquisadores poderão cometer o erro grosseiro de afirmar que este é um tipo de criatura, aquele é outro; não são iguais. Assumindo, assim, o risco de inutilizar quaisquer das duas hipóteses até aqui comentadas – ou que o mito ou que a identidade do tipo não sejam notados.

Resta no final das contas retornar ao tipo de criatura avistada pelas três garotas. Se desejarmos eliminar todas as especulações e, para hipótese de trabalho, atermo-nos ao que descrevem, estaremos por um lado na obrigação de buscar nos registros ufológicos algo que se assemelhe à criatura. Por outro, estaremos livres para especular, mesmo sobriamente. A busca nos indica que o tipo seria raro, e parece-nos que o caso de Sara Cuevas, passado no México, registra uma criatura cujo perfil coincide muito com o que resultou do primeiro retrato falado, já comentado. Sara achava-se em casa quando ela e a filha avistaram algo se movendo lentamente no milharal próximo aos fundos da residência. Tratava-se de um ser diferente, cuja luz do luar, e os reflexos fracos da iluminação da rua, faziam destacar os contornos de quase todo o corpo. Sara Cuevas correu a apanhar sua câmera VHS e registrou os lentos movimentos da criatura, que num momento vira a cabeça por quase 180 graus, inclusive na direção dela e da filha.

O filme apresenta quadros que, em imagem congelada, mostra um perfil de cabeça e cara absolutamente idênticos ao desenho resultante da tentativa de retrato falado elaborado por Vinício Cunha. O caso de Sara Cuevas esteve às mãos de seu pesquisador maior, Jaime Maussán, jornalista da Televisa. Numa conferência ilustrativa de um bom documentário, o ufólogo mostra destaques gráficos feitos em computador do perfil da criatura, porém nitidamente resultantes da impressão visual de quem cobriu o quadro da imagem congelada. Mais ou menos como se o desenhista estivesse fazendo mera suposição na cobertura de luz e sombra, mas que não coincide com o que registrava o quadro do filme.

Talvez porque os ícones com que o desenhista trabalhava mostravam, até aquela data, o perfil de supostos extraterrestres de formatos tipicamente espaciais. Mas uma nova passagem de destaques em torno da criatura, em imagem congelada, com a preocupação de destacar apenas o que o relevo iluminado mostra, decorrerá num perfil idêntico ao ser descrito pelas três garotas do Caso Varginha. Inclusive as protuberâncias cranianas aparecem. Situação que, diga-se de passagem, faz com que, ao menos de forma singela, ambos os casos se apóiem e se valorizem. Isto sem falarmos novamente que as testemunhas dos dois episódios não hesitam em afirmar que a criatura possuía movimentos muito lentos.


Cortesia Vinicio Cunha

Cortesia Elizabeth A. R. Silva

O repórter fotográfico Vinício Cunha fez esses desenhos da criatura observada pelas moças, numa tentativa de retrato falado. Eles serviram de inspiração às demais interpretações artísticas criadas posteriormente. Vinício desenhou o que as garotas descreveram, ouvindo-as atentamente

Separadamente, a publicitária paulista Elizabeth Aparecida Rodrigues Silva também elaborou um esboço do ser avistado pelas três testemunhas, em trabalho semelhante ao do repórter fotográfico Vinício Cunha. Aqui, a criatura está sendo retratada de perfil e de frente, conforme descrita

Sob o aspecto de suposições, como frisado, a razão do aparecimento do ser para as três garotas comporta diversas e infinitas interpretações, todas, no entanto, sem a menor sombra de dúvida, desacompanhadas de bases concretas e definitivas, o que aliás é óbvio. Como quer que seja, o tipo em pauta é mesmo raro. Como o perfil do ser filmado por Sara Cuevas não recebera um destaque correto, muitos opinaram no sentido de que o Caso Varginha tivera como protagonista uma criatura jamais mencionada nos meios ufológicos. E até então com razão. Haja vista o exemplo notável dado pelo professor Ricardo Varela Corrêa, chefe do setor de balões do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), de São José dos Campos (SP), na revista UFO Especial nº 13, de julho de 1996, cuja edição inteira tratou do Caso Varginha.

Varela frisou que “...o estranho é a fisiologia da criatura, diferente de qualquer outra já vista. É estranho, pois o que nós sabemos dos ETs é que são muito independentes, às vezes até agressivos. Enquanto que a criatura de Varginha estava sem reação, imóvel, coisa que nunca registramos ter acontecido no mundo. Uma hipótese que está sendo levantada pelos ufólogos sugere que a criatura seja algum tipo de ‘animal-sonda’, colocado na Terra para levantamento de informações”. Bem, a discussão e o treinamento de exercícios intelectuais permitem as mais fartas suposições. Até de que seria um Intraterrestre (IT), criatura provinda das profundezas do próprio planeta, inteligente ou enviada, como preferiu o conhecido adepto da intitulada Ufologia Mística, o estudioso Luiz Gonzaga Scortecci de Paula2. Tanta certeza às vezes caracteriza opiniões assim, que durante a IV Conferência Internacional de Ufologia, promovida pelo excelente ufólogo Rafael Cury em Curitiba (PR), em junho de 1996, uma palestra independente e exclusiva foi realizada em outro espaço cultural, cujo título era, salvo engano, O Intraterrestre de Varginha, ao módico preço de R$ 25,00 por pessoa...

Ao passo que Kátia foi literalmente assediada para frequentar uma igreja evangélica que desejava por toda lei convencê-la de que fora vítima de uma troça do diabo, Valquíria e Liliane foram vítimas de uma repreensão, lançada em alto e bom som pelo padre durante a missa, o que as obrigou a regressar para casa ofendidas e tristes. Aos poucos o respeito que a maior parte da mídia lhes conferia foi sendo mesclado com pressões absurdas deste tipo, tal como durante as diversas e inconvenientes insistências de um entendido de questões místicas, que demonstrando ser um verdadeiro mestre destinado a proteger o mundo, tentava convencê-las com o típico ar de sábio de que tinham avistado um elemental e não essa bobagem de extraterrestre. Aliás, se não o único, este talvez tenha sido um dos únicos instantes em que as três se saturaram com visitas deste tipo, acabando por demonstrar o desejo de que ele não mais as perturbasse.

Certamente seria um pensamento no mínimo injusto, ou por demais pretensioso, acreditar que somente a influência da Ufologia não teria sido perturbadora. Pois que o foi, e muito. De qualquer forma, a Humanidade conviveu durante séculos com elucubrações místicas tocadas a diabo, elementais, alucinações, invencionices. E a hipótese extraterrestre é relativamente moderna. Resta-nos o alívio de que em termos é menos perturbadora, mais fascinante e bem mais bonita. De certo modo aliviadora, em substituição a alternativas de cunho tão negativo e nefasto ao psiquismo e às emoções de três moças singelas de cultura e modestas de recursos sociais. Mesmo que, de bom alvitre repetir, jamais se convenceram em definitivo de que a criatura avistada seria necessariamente um ser de outro planeta. As pesquisas iniciais a que se submeteram consistiram, com o devido cuidado de se evitar qualquer influência que tornasse seu depoimento deturpado, em repetidas perguntas, com alternação e mais repetições. Nunca se contradisseram, apesar de interrogadas por várias vezes em separado.

Por algumas semanas Kátia, Valquíria e Liliane foram as únicas testemunhas conhecidas do caso, que concordavam em falar ao público. Pessoas que jamais tiveram qualquer motivo para se esconder sob conceitos sociais, com receio de dizerem o que de fato tinham visto. Por isto de plano foram dignas. E apresentaram a dignidade de manter sua naturalidade por todas as vezes que tiveram de chorar, de mostrar indignação, de sorrir. Com tal comportamento permitiram que um caso extraordinário e importante viesse à tona. Pois se limitaram a narrar aquilo que, num sábado despretensioso e quente, estando retornando para casa de braços dados, três amigas observaram subitamente, por poucos segundos. Deixando para os místicos, para os crentes, para os sacerdotes, para alguns jornalistas inconformados, para populares desacostumados ao compromisso de aprofundamento cultural, para os ufólogos, todas e quaisquer hipóteses que desejassem considerar. Não era problema delas.


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